24 de jan de 2017

Como ler textos astrológicos antigos? Você vai se surpreender.

Quando o estudante de astrologia se depara com um texto medieval ou bizantino de astrologia, é comum ter mixed feelings de fascinação misturado com decepção, principalmente a última.

Normalmente, os textos são divididos em tópicos por casa relacionada. Assim sendo, se a casa 9 representa religião e viagens, no capítulo dedicado a essa casa, os autores normalmente tentam responder a perguntas pertitentes a esses temas, como “o nativo viajará muito ao longo da vida?” ou “como será a religião dele?"

Até aí, tudo bem. Só que, se analisarmos mais a fundo, dá pra notar que nem todas as perguntas pertinentes ao tema são respondidas.

Por exemplo, o autor pode dizer quantos filhos a pessoa terá, mas não dizer quantos irmãos. Na essência, a questão é a mesma: quantidade de pessoas.

Ou então, ele pode dizer o bem estar e a prosperidade do nativo, mas não dizer a prosperidade e o bem estar da parceira do nativo.

Se um dia você se tornar um leitor frequente desses textos, provavelmente já saberá de antemão o que vai ser dado em cada tópico, ou, mais ainda, o que deveria estar no tópico para satisfazê-lo enquanto leitor/aluno mas que, no entanto, não consta.

Talvez muito da sua decepção se dissipará com um pequeno segredinho que, acredito eu, é uma coisa simples, e que vai te irritar: “por que não pensei que era assim?"

Estilos de composição

Os textos de astrologia antiga que voltaram a circular em línguas modernas seguem um estilo de composição muito particular da antiguidade, que a princípio não é óbvio mas, uma vez entendido, torna os livros muito mais versáteis do que se imagina.

Cito aqui uma passagem de Rhetorius sobre como seria o nascimento do nativo:

55. Nascimento
(…)Júpiter no Ascendente dá um nascimento favorável e, se o signo ascendente for masculino, torna o pai melhor que a mãe mas, se feminino, torna a mãe melhor que o pai. Saturno no Ascendente causa um nascimento desfavorável, especialmente em signos femininos(…)


Uma pergunta que eu sempre faço a mim mesmo quando leio esses textos é: como generalizar esse aforismo para todas as casas? Será que eu posso dizer que Saturno na casa 3 representaria um nascimento difícil para o irmão? Será que júpiter na casa 3 em signo feminino indicaria que o nascimento do irmão foi fácil, e que a mãe foi melhor para ele do que o pai?

Bom, depois de anos de estudo, ao longo dos quais essa pergunta ficou adormecida nos escaninhos da mente, a resposta que eu descobri: SIM

Para todas as casas que representam pessoas deveriam haver as mesmas perguntas e as mesmas técnicas. Se eu quero saber como será a relação do nativo com os pais, porque não vou querer saber como será a relação do nativo com seus irmãos?

Entretanto, o estilo de composição dos autores antigos consiste em não ser repetitivo. Se uma técnica pode ser usada para responder a uma pergunta comum a vários temas, os autores normalmente a exporiam apenas num dos temas, deixando implícito que se poderia usá-la nos outros.

Todos os tópicos que tratam de elementos com grande similaridade (exemplo, todas as casas que se referem a pessoas) teriam os mesmos tipos de perguntas, e os mesmos tipos de técnicas para respondê-las! Entretanto, talvez para economizar papiro, ou talvez porque o estilo de composição textual misteriosamente seja assim, não se repete tudo que se pode estudar em todas as casas. O conteúdo dado em cada capítulo pode ser também utilizado para os assuntos dos outros capítulos.

Claro que isso tem de ser feito com alguma adaptação. Por exemplo: ao invés de se determinar o número de irmãos com Júpiter, que é significador de filhos, se determinaria com Marte, que é significador essencial de irmãos. Entretanto, a obediência à técnica seria a mesma.

Usando de exemplos caricatos e comuns nesses livros: você aprenderia quantos filhos o nativo teria através da mesma técnica para saber quantos irmãos o nativo teria, descobriria como foi o nascimento dos irmãos do nativo com a mesma técnica para saber como foi seu nascimento e saberia se o seu irmão é promíscuo com a mesma técnica usada para saber se a sua mulher é promíscua!

Uma vez tendo esse discernimento, note ques os exemplos acima são apenas grãos de areia numa praia imensa. As possibilidades são incontáveis. Seu conhecimento astrológico será amplificado, multiplicado por 12.

Seu exercício agora será pensar, toda vez que lê um livro de astrologia antiga, em como aplicar todos os conteúdos dados numa casa em outra casa.

13 de dez de 2016

dos trânsitos às direções: o raciocínio reverso.

Todo mundo que começa a estudar astrologia, é levado a analisar os trânsitos sobre o mapa natal. É a coisa mais óbvia para quem começa: ver como o céu do momento influencia o mapa natal. E é a técnica que a astrologia moderna, carente de conceituações mais complexas, recorre com mais frequência em seus livros para iniciantes.

Mas pode ocorrer de você, num dia em que está zapeando trânsitos sobre o seu mapa da mesma forma que alguém com tempo livre zapeia canais de tevê, notar algum trânsito importante se aproximando de um ponto importante do seu mapa natal.

No dia 21 de dezembro de 2016, Saturno em Libra no meu mapa natal receberá o trânsito exato de Júpiter, por meio de uma conjunção:

Sempre que conjunções por trânsitos ocorrem, principalmente entre planetas de movimento lento como Saturno e Júpiter, é um sinal de que alguma coisa importante aconteça, com a margem de erro de um dia ou antes. Mas o quão importante é esse evento?

Os trânsitos são técnicas muito rápidas e refletem o momento; um momento já previsto por outras técnicas. Então, creio que devamos olhar outras técnicas preditivas que esclareçam o que os trânsitos podem representar. E nunca devemos nos esquecer do mapa natal

A fim de termos certeza de que o evento prometido nos trânsitos é importante, recorreremos a uma técnica que reflita períodos de tempo cada vez maiores. Acima dos trânsitos, há a revolução Solar do ano de 2016:

A revolução solar tem Saturno e Júpiter em quadratura um com o outro. Uma recepção capenga, onde os dois planetas estão retrógrados e em casas cadentes, mas estão unidos, assim como no trânsito. Nesse mapa, Saturno rege a casa 7; júpiter a 9. Curiosamente, eles tem a mesma relação de regência no mapa natal: Saturno é almuten da 7 na minha natividade, e júpiter rege a 9.

Os planetas regem várias coisas simultaneamente. Saturno é significador de doença, de pessoas humildes, e rege no meu mapa natal a 10, a 11 e a 7. Júpiter rege crianças, tem relação com conhecimento e espiritualidade, e rege minhas casas 9 e 12. São muitas coisas para serem notadas, e é natural pensar nessas horas que é impossível prever algo.

Mas para isso que existem técnicas mais simples do que a revolução solar, e que representam períodos de tempo maiores ou iguais a um ano.

A profecção do ano cai em aquário no meu mapa natal, signo de vênus, regente da 7 e dispositora de saturno. Vênus e Saturno são importantes porque regem o ano: este por regência, aquela por presença no signo da profecção. Eu não descartaria um em detrimento do outro.

Se estivesse sozinho, poderia até prever um relacionamento novo, porque vênus rege a casa 7. Mas a casa 7 não representa somente relacionamentos novos, então os casais felizes podem respirar em paz. Se fosse assim, toda vez que vênus ou o regente da sete fossem ativados no mapa de um homem, um marido arranjava uma amante e/ou se divorciava. A casa 7 também pode indicar filhos. E a casa 11 tem a ver com grupos, salário e patrocínios.

Dentro de aquário - o signo da profecção anual, existem alguns lotes, mas nenhum de grande importância. Primeiro, há o dispositor do lote mais importante de um mapa, que é Vênus, regente do lote da fortuna em Touro.

Depois da profecção, resta a Firdaria. Estou vivendo a Firdaria Lua/Júpiter. A Lua tem a ver com família e dinheiro, porque está na 2 e rege a 4. Tem relação com crianças, viagens e espiritualidade porque está em oposição a Júpiter. Além disso, Júpiter traz temas de internações/isolamento, dinheiro, crianças, além de viagens pela regência da 9 e da 12.

O pano de fundo começa a fazer sentido. Muitas coisas estão se repetindo, e outras estão em sinergia umas com as outras. Por exemplo: conjugar influência de júpiter, significador essencial de crianças, com a casa 7, que representa casamento e sexo (e não a 5, como falam por aí) é altamente sugestivo da via mais tradicional de por criancinhas no mundo: pelo sexo.

Pra fechar com chave de ouro, resta ainda a direção por termos egípcios do Ascendente, na qual eu vivo… uma direção do Ascendente aos termos de Júpiter!


Como foi dito anteriormente, Júpiter significa crianças, dinheiro, espiritualidade. No meu mapa natal, especificamente significa também viagens e internações, porque rege a 9 e a 12.

Todo esse processo foi feito do nível mais complexo ao mais simples. É muito difícil prever olhando isoladamente trânsitos e revoluções solares. Devemos ir níveis temporais acima, buscando técnicas que tenham regência sobre períodos de tempo maiores, porque normalmente os sinais dessas técnicas são mais simples.

A norma costuma ser essa:

Quanto maior o período de tempo que uma técnica rege, menor o número de coisas que ela vai indicar.

Veja por exemplo, a direção do ascendente pelos termos. Quando o Ascendente entra nos termos de Júpiter, eu tenho que me preocupar apenas com o que júpiter representa no mapa natal! São apenas três casas e os aspectos que Júpiter recebe. Se você acha isso muito, é porque não se lembra que lá em cima, no começo do artigo, eu tinha de lidar com sete planetas e doze casas num mapa inteiro, a revolução solar!

Todas essas coisas que Júpiter rege indicarão eventos por nove anos, porque Saturno só vai administrar os tempos do Ascendente em 2018, nove anos depois de Júpiter começar.

Nove anos é tempo a beça. Isto é contra intuitivo… Ora, uma técnica que abarca um período de tempo grande deveria indicar muita coisa, então não deveria ser apenas um ou dois planetas envolvidos, mas todo o mapa natal!

Faz sentido sim, cara, só você que não percebeu. Essa técnica está focada em detectar eventos significativos.

Tente se despir da sua vaidade e reflita: quais foram os eventos do ano que foram divisores de águas na sua vida? Talvez não haja nenhum. Entretanto, se você usar um período de tempo maior, pode ser que alguma coisa já tenha acontecido.

Veja, por exemplo, um breve cronograma da minha vida:

  1. 2001 - passa na faculdade de medicina. Vai morar sozinho noutra cidade.
  2. 2003 - primeiro relacionamento com duração maior que três meses
  3. 2006 - começa a estagiar
  4. 2007 - se forma, quebra a perna e sofre cirurgia
  5. 2008 - volta a morar com os pais, tem duas osteomielites seguidas. vai morar com a namorada
  6. 2009 - casamento e cirurgia para correção da perna (finalmente curado)
  7. 2011 - divórcio e novo relacionamento
  8. 2013 - vai morar noutro estado
  9. 2015 - passa em concurso público


Se você notou, há gaps na contagem, anos que não foram citados porque simplesmente foram continuações das tendências construídas nos anos anteriores. Isso porque eu me preocupei apenas em enumerar eventos significativos. Aquela dor de dente que tive em 2003 passou batido. Aquele programa de computador massa que baixei em 2004 e que facilitou muito a minha vida idem. Não há uma regra em discernir se um evento é importante ou não, apenas bom senso.
Escrevi tudo isso para mostrar como se detectar um evento importante, e com raciocínio reverso do que costumamos usar na previsão nossa de cada dia. Ou seja, os trânsitos são a última coisa a ser olhada. Eles definem o dia em que os eventos prometidos por outras técnicas vão acontecer. Quando olhamos trânsitos e revolução solar, já sabemos o que procurar nelas, e isso foi dado por outras técnicas: a profecção, a firdaria e as direções primárias por termos, por exemplo.

Saturno natal e Júpiter em trânsito, no dia 21 de dezembro de 2016, vão entrar em conjunção exata. O evento que ocorrerá vai mudar minha vida. Espero que mude pra melhor.

Está tudo pronto pra te receber, Carlo. Vem.



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